Correio sentimental
Da Miquelina para o Constantino
Constantino,
não me recordo da tua cara, da cor dos teus olhos. No passado sábado, saíste antes de eu acordar. Mas deixaste uma impressão funda no meu corpo.
Não esqueço que me alagaste o corpo com os teus braços, as tuas mãos, os teus dedos. Tão pouco esqueço o modo rude e bruto como me envolveste em ti, me apertaste e roubaste o fôlego, como rasgaste o meu vestido de cerimónia.
Neste momento, são dois os meus desejos, os maiores da minha vida. Tornar a estar contigo, para ficar com memória da tua face. E esperar que voltes a afundar a tua virilidade em mim. Incendeia-me o desejo, a vontade de ti.
Por isso, rogo-te, Constantino, regressa a mim. Por uma vez que seja. Para eu ficar a saber quem és e quem foi que me arrastou para o pecado. Sei que sabes onde encontrar-me. Comparece-me. Quero rebolar contigo. Quero muito. Leva-me contigo para o êxtase. Sou e quero ser tua. Quero de modo arrebatador.
O sol nas noites e o luar nos dias
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia
Amar dentro do peito...
Amar dentro do peito...
Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:
Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:
Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:
Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.
Manuel Maria Barbosa du Bocage
Do Josué para a Amélia
Amélia, minha doce Amélia, já perdi a conta das vezes em que tentei alcançar-te.
Não atendes o telemóvel, devolves as minhas cartas, ignoras a campainha,
baniste-me do teu mensageiro electrónico, chegaste a chamar a Guarda Republicana
para me encarcerar. Amélia, só não me dá o desgosto por te amar demais, por
querer-te mais que todas as coisas deste mundo, por perder noites em branco com
o pensamento em ti, por querer manter viva a chama que me liga à tua alma.
Amélia, tu és a flor que falta no meu jardim, o teu cheiro a Primavera
ultrapassa qualquer Barca Velha que o meu olfacto possa sentir, os teus seios
são mais firmes, belos e estéticos do que qualquer obra que alguma vez o Siza
Vieira possa idear. A tua voz deixa-me sem palavras porque é uma das ínfimas
potencialidades das tuas cordas vocais. Amélia, contigo vou até ao fim do mundo,
era capaz de me convencer que o Staline merecia o Nobel da Paz Póstumo, sou até
capaz de aceitar a tua diferença. Amélia, não me interessa
se mudaste o nome para Marcelino, porque se te amava antes sendo tu mulher,
agora amo-te muito mais, depois da tua operação. Porque o verdadeiro amor não
conhece barreiras, constrangimentos ou complexos dos sexos. Amélia ou Marcelino,
tanto faz. És um ser como qualquer outro e mereces ser amado até à exaustão.
Amo-te. Do teu eterno companheiro de copulação, Josué.
Sedução
Porque o Amor também se faz de ...
Helena Almeida
Lisboa (Portugal), 1934
Fofinho...
É este o perfeito exemplo do que queremos que expressem....
Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
[António Lobo Antunes]
Da Beatriz para o Cajó
Cajó. Conheci-o há uma semana, no Gasolinas. Apresentou-me um prato de perceves e ensinou-me como comê-los. Uma arte para mim desconhecida, até então.
Daí à pista de dança foi um salto. Uma noite inteira ao som do acórdeão de Telma Santos, em dança de roda, rodopios vertiginosos e voltas invertidas.
Quando voltarei a encontrá-lo? Não sei. Se estiver a ouvir o programa, ele que telefone à Beatriz. Descobri uma tasca na Nazaré que tem uns perceves fantásticos.
Beatriz,
S. Marques da Serra.
Do Rui para as dominadoras
Olá, chamo-me Rui. Trabalho numa discoteca mas sinto-me muito só, apesar delas não me darem tréguas e de estar sempre rodeado. Quero uma relação séria que suporte a minha vertente criativa. Gosto de ser dominado! Contudo, a mulher ideal tem de ser muito feminina mas com pulso firme. Sendo assim, venho por este meio apelar a quem queira participal em momentos inesquecíveis.
Quem partilhar o gosto do escuro mas também partilhar a cor da energia existente nestas trocas de experiências, não hesite em contactar-me para o e-mail correio-sentimental@hotmail.com.
Gostava de terminar com uma frase de Francis Bacon: "torturar a natureza até que ela liberte todos os seus segredos".
Beijos,
Rui.
All you need is love
Este blog foi criado porque o amor está no ar. Existe para publicitar o conteúdo das cartas, dos postais, das folhas, dos guardanapos ou dos
post-it perfumados e coloridos onde são inscritas as declarações de amor ou onde são feitos os pedidos de correspondência que se lêem, em voz alta e radiosa, na rúbrica «
Correio sentimental», do programa radiofónico
Ossos do Ouvido, emitido aos domingos, entre as 19.00 e as 21.00, na ABC Rádio (103.7 fm stéreo ou www.abcradio.com.pt).
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